quarta-feira, 24 de julho de 2013

Escuta, Coxinha!

Você que gritou não violência e chamou os seus amigos de baderneiros, escuta.
Você não estava brigando por vinte centavos, né?
Nem pela melhoria dos transportes públicos, já que antes nunca pensou em sair do seu carro, nem para diminuir o congestionamento.
Só via ônibus lotado pela janelinha, né?
A periferia agradece sua comiseração, sua ajuda e entusiasmo.
Que susto você levou, heim! Quando viu que tinha bandidos saqueando lojas e você tinha confundindo tudo.
É, deve ter lamentado por ter esquecido sua faixa: “Redução da maioridade penal”. Mas escuta: Quantas vezes você chamou de agitadores aqueles que faziam greves? Quantos lhe ensinaram que eram baderneiros aqueles que lutam pela reforma agrária, ocupam terras ou/e empunham bandeiras vermelhas?
Escuta coxinha, para não confundir mais coisas.
Você sabia que também em um estádio de futebol, onde vaiaram a Dilma, seus pais ou avós, aplaudiram de pé o general Médici?
Tragicômico, né? Idêntica situação, só que de sinais trocados.
Será que eles sabiam onde Dilma e seus companheiros estavam?
Sabiam sim, e até hoje não a perdoam por isso.
Como nada lhe disseram você grita “guerrilheira”, como se isso a ofendesse.
Eles não disseram também que, graças às lutas daqueles tempos (e não era balas de borracha, veja) você tem sua manifestação pacífica, entusiasmada e bem comportada. Legal, né?
Não. Eu tenho medo de você, coxinha. Não de sua aparência física, pois, mal o conheço. Tenho medo de suas ideias e o que podem fazer contigo.
Como nada lhes disseram e tudo o confunde, tenho medo de que por sua ingenuidade, por sua ânsia de participar e mostrar sua revolta, acabe sendo manipulado e ajude a dar vida ao monstro que tantas pessoas se sacrificaram para derrubá-lo, há tempos atrás.
Mas, vou lhe dar meu voto de confiança, sei que saberá agir com sabedoria.

P.S.: Isto foi uma pequena paródia ao “Escuta, Zé Ninguém!”, de Wilhelm Reich. (Ah! ele não era nazista, não. Aliás, foi morto pela Gestapo...caso você não saiba, é claro).

José Araujo

A verdade ganhará as ruas

                A juventude que sai às ruas neste inverno de 2013, é prova que vivemos uma democracia estável. Sua manifestação por mudanças é salutar e digna de todas as loas. Os excessos de ambos os lados_ manifestantes e aparatos dos governos estaduais_ são ainda névoas de um passado ditatorial não esquecido.               
               Novas práticas precisam ser elaboradas para que não haja mais a desorientação nem do governo, nem por parte daqueles que clamam por novos rumos na vida política do país. Reivindicações conflitantes e a nítida falta de lideranças deixam claro a necessidade do aprofundamento das mudanças por quais todos lutamos.
                Se há os descontentes com o Governo Federal, há também os que se posicionam contra governos estaduais e municipais. Tudo isso é mais do que saudável. Como escreveu Nelson Rodrigues: “A unanimidade é burra”.
                O que é inadmissível é a visível infiltração da ultra-direita nos protestos (algumas passeatas deixariam confortável até Plínio Salgado e a TFP) e sua postura golpista. A recente história brasileira mostra-nos que não foi o PT que inventou a corrupção e nem a saída de Dilma poria fim a esse estado de coisas. Pelo contrário, sua postura sempre se põe avessa a essas práticas.
                A corrupção existe em qualquer sistema e em todas as partes do mundo, mas é no capitalismo, um sistema que idolatra o lucro, que com mais facilidade é disseminada em seu meio. Até a sociedade a assimila e reflexo disto está em seus representantes eleitos no parlamento. Mas suas garras avançam por todos os poderes: executivo, legislativo e judiciário.
                A crise é sistêmica e como tal deve ser enfrentada.
            Uma parte dos jovens tem como exemplo de corrupção no país o episódio conhecido como “mensalão”. E é natural se considerarmos que em sua maioria tornaram-se adultos com o PT no governo federal. Esquecem ou querem que eles esqueçam que foi heróis como José Dirceu, Genoíno entres tantos outros, que lutaram na juventude arriscando suas vidas contra a repressão e a ditadura e, graças a todos eles é que hoje podemos ver a democracia ser consolidada no Brasil.
                 Lógico, nem por isso tem o direito de serem corruptos. Por outro lado, nem sempre o que chamamos de justiça significa imparcialidade e a prova mais contundente disso é o julgamento do tal “mensalão”.
                  Confesso não ter lido as milhares de páginas que compuseram o tal processo.  Seria-me impossível. Mas assisti pela mídia, com incansável paciência, a transmissão deste que foi o maior “reality show” da televisão brasileira e pelo visto dificilmente voltará a acontecer se mudarem os protagonistas, em qualquer outro ato semelhante.
                   Ao longo daquelas semanas cheguei à conclusão que, além da retórica dos senhores juízes e dos depoimentos constantes nos processos, o tal “mensalão” (compra de votos de parlamentares) nunca existiu. Pelo menos não como o seu denunciante e beneficiário (Roberto Jefferson), na época, revelou. O que houve foi a comprovação do caixa dois, do qual se aproveitaram a quadrilha de Marcos Valério e alguns partidos da coalizão (PTB, PP, PL, hoje PR). Se o caixa dois passa a partir de agora a ser crime (já que a Justiça Eleitoral assim não o definia) é algo a ser louvado e mais que isso ser cobrado de todos os partidos e coalizões: que na Reforma Política seja aprovada o financiamento público das campanhas e a banição de todo financiamento privado, pois é isso o que gera os conluios e os acordos espúrios com banqueiros e empreiteiras, ou seja: os corruptos e os corruptores. Porém, nada mais consistente viu-se até agora.
                      Agora, nesse episódio, algumas coisas tem que ser avaliadas: 1º: A condenação de José Dirceu foi muito emblemática. Podemos pensar que serviu para responder a mídia ávida em desmascarar o PT condenando-o por ser ele o maior líder do partido, fora Lula; este que não poderia ser atingido sem desfraldar uma séria crise institucional.
                  2º: Dirceu foi condenado por suposição, ou seja, juízes alegaram que: “Era inconcebível que o tesoureiro do PT (Delúbio Soares) tivesse a capacidade intelectual de engendrar tal esquema”. Condenaram-o (Dirceu) por “ouvir dizer, porque alguém citou o seu nome e coisa e tal”, nada materialmente foi comprovado, nem por gravações, nem por suposta lavagem de dinheiro. Nada! As contas de Dirceu e de Genoíno, foram vasculhadas sem nelas acharem nenhum centavo ilícito. Pela primeira vez na Justiça brasileira e diga-se, mundial, réus foram expostos e condenados sem prova material nenhuma.
                      Repito: o caixa dois tem que ser execrado da política brasileira, mas o que levou o PT ser tão apezinhado, fora o fato de ter conseguido eleger um operário para Presidente do Brasil ou, depois colocar no mais alto poder do Estado uma guerrilheira que arriscou sua vida e sua integridade para combater a ditadura e sobreviver? E mais ainda: impedirem que tais representantes da elite voltassem ao poder?
                       O julgamento do chamado “mensalão” provou que certos membros do Judiciário não são tão imparciais como deveriam e que a reforma política brasileira está mais que atrasada.
                      Nunca na história brasileira o povo esteve de fato tão próximo de poder. Nunca se criou tantos mecanismos para por a sociedade organizada (sindicatos, associações, pastorais, movimentos dos sem-terras, indígenas e outros ) para cobrar e se inserir no governo. Temos que mudar o Brasil? Sim. Mas sem retrocessos. E Dilma ao substituir um líder carismático que pôs na governabilidade o seu foco, mesmo sacrificando os ideais socialistas do partido, teve que fazer escolhas nem sempre fáceis. É claro que isso gerou certos acomodamentos e a nova expressão política, os jovens, alheios a todo esse processo, tinham e deveriam se manifestar.
                Novas lideranças são necessárias para que a estrutura do poder não se deteriore e novos avanços morais e estruturais possam ter lugar numa sociedade em avanço. A crise _ e toda crise é benéfica _ cobrará o seu o preço, mas se o preço a pagar for à consolidação das lutas populares que coíbam as injustiças e diminuam as distâncias das classes, esse preço sairá barato. A história que tudo avalia saberá consolidar esse processo. E os antigos donos do Brasil jamais retornarão.                  

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Frases Lapidadas...em Bares!

FRASES I

(feitas por mim, ao acaso)


É aviltante que a honestidade do político siga a métrica inversa do descaso com a coisa pública.

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É inaceitável que a vida passe e a gente não saiba a distância da próxima parada.

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É incrível como as referências que dei ao meu filho foram quão velozmente ultrapassadas.

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É claro que a única resolução inevitável e certa de uma boa reunião é a próxima.


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É óbvio tudo aquilo que repetimos de outrem.


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Se demagogia, hipocrisia, xenofobia, cinismo, racismo... fossem bons, seriam verbos.


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Acho legal a sinceridade da homeopatia: Farmácia de manipulação.



FRASES II
(pinçadas de escritos meus)


REMINISCÊNCIAS...



Coisas do meu passado perderam-se de propósito, sabendo-se inócuas e irrelevantes, puramente descartáveis; sabiamente cônscias de nada mais representarem.

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Parece ser o olfato_ quando nossa mente regressa lentamente no tempo_ a chave que abre o mecanismo oscilante da memória.


*

Ontem, hoje e amanhã são faces de um todo que só se completará aos olhos alheios, quando nossa vida for apenas uma miragem. Por outros olhos, então, ela terá sentido: começo, meio e fim e esses dirão, mergulhados em suas próprias incompletudes, que nós fomos alguém.


*

Se nos meandros da vida, cenas foram esquecidas... será que soubemos vivê-las de fato?


*/

Em algum momento em minha vida, Deus deixou de existir. Porém devo admitir como me foi difícil encarrar essa nova realidade e estarrecedor constatar como as pessoas ao meu redor e os povos de todo mundo, são suscetíveis às fábulas.


*

Parece que, ainda ontem (1999), escrevi um pequeno poema sobre meu avô. Ele morreu aos oitenta e nove anos não querendo acreditar que o homem chegara à Lua. Em sua mente singela e crente, tal feito seria impossível, senão “um dia vivo chegaria ao Céu”. Era um tempo em que nós, crianças, imaginávamos que os velhos já nasciam velhos com suas crenças e superstições e não acreditávamos_ por mais que quiséssemos_ que um dia iríamos crescer.




FRASES III

(sobre o materialismo)


Descartes, pragmaticamente, escreveu: “Penso, logo existo”, racionalizando assim o existir humano. Com certeza, em algum momento mágico da aurora da humanidade, um abstraído primata, fascinado com a constatação de seu labor, balbuciaria, entre grunhidos: “Eu faço” e a partir daí começaria a epopeia humana sobre a Terra e para o olhar humano não haveria mais horizontes impossíveis.

                                                                  *

Pouco importa que a vida veio incrustada na cabeça de um cometa há anos-luz daqui ou surgiu de uma maneira singular numa tépida lagoa de Darwin pois somos, de uma maneira muito especial, o seu mais complexo hospedeiro!

*

Pragmaticamente falando:

Quando o homem acreditava que a Terra era o centro do Universo, ou mesmo quando passou a supor que o sistema solar era a dimensão deste, a existência de um Ser Supremo e Magnânimo podia ser concebível. Hoje, quando nos sabemos perdidos entre bilhões de galáxias tal concepção tornou-se aterradora e ao mesmo tempo dispensável.
Quando partículas virtuais morrem numa fração de um nano-segundo um possível criador seria, no mínimo, patético.

sábado, 3 de março de 2012

No dia 10/03/12, próximo sábado, na Praia de Botafogo, será o lançamento de meu livro de contos "Alfa&ômega", no Zuzu Gorró, rua Prof. Alvaro Rodrigues, Loja 35 (Em frente ao nº 15 - Posto BR). Envio aqui a apresentação do livro, conto com todos:

APRESENTAÇÃO


Uma pitada de amor, humor e loucura!


Eugenio Montale, mestre da poesia italiana, em um dos belos poemas constantes do livro Diário Póstumo, decreta: “se vuoi la mia opinione/ l’única via d’uscita / è l’illusione / perché ogni giorno la vita / supera il limite Che pone (se queres minha opinião / a única via de saída é a ilusão / porque a cada dia / a vida supera os limites que impõe)”.
O autor José Araújo, com as pequenas novelas de ALFA & OMEGA, nos obriga recorrer ao poeta, pois em cada uma das narrativas constantes desse livro, demostra como a vida supera os limites aparentes postos, com seu conteúdo mutante de surpresas.
O amor e a loucura estão presentes neste livro. O autor narra em o “Crápula” a estória de um amor proibido, que a exemplo de clássicas estórias já escritas por mestres da literatura universal, somente poderia acabar em tragédia. A estória de Pedro Benotti e Soraya certamente surpreenderá o leitor, senão pelos absurdos caminhos percorridos pela torpeza humana, pelo desfecho inusitado, cortante, que se aproxima do desfecho de um filme de suspense, dando ao conto um viés quase cinematográfico.
Na novela “O Energúmeno” confluem a vida, a crendice e a loucura. O autor remete o leitor ao período escravocrata, e consegue extrair, com a habilidade de um bom contador de histórias, da aparentemente previsível e curta relação entre um escravo – Quinzinho – e a frágil e doentia filha do senhor de engenho João Manoel Felício – Carolina -, um drama surpreendente, capaz de impactar a pacata Vila, que depois tornar-se-ia Mogi das Cruzes.
Ao desenvolver o enredo, José Araújo serve-se de acurada percepção, das características da época. Emergem claros, no texto, o preconceito, a arrogância, a intolerância, a pobreza e a crendice que vicejavam no período, características das quais, é bom que se reconheça, ainda não nos livramos.
Em “Melk”, o autor lança mão de um recurso inventivo. A estória de três camundongos – Melk, Meg e Fred – confundir-se-á com a vida do habitante de um casarão, acabando por culminar em um final assustador. É como se aqueles pequenos seres, de dentro de seu mundo sombrio, infenso à luminosidade, pudessem compreender certas circunstâncias da vida humana, e nelas se envolvessem a ponto de se tornarem o núcleo do próprio desfecho dramático.
Em “Alfa & Ômega” o autor busca na ficção científica (será ficção?) o sentido de um mundo que se desvanece. A clonagem utilizada como o epicentro de um mundo em estado de permanente desagregação, onde tudo “se consumia entre trevas, sem um único som”.
O autor consegue, neste conto, trazer à luz aspectos éticos e filosóficos que estão na ordem do dia. Nela retine implícita a pergunta que se fazem hoje os cientistas, políticos, religiosos, filósofos e outros intelectuais a respeito da extensão ética da clonagem, inclusive da clonagem humana. Haverá limites para a ciência, ou todos os limites são apenas marcos a serem ultrapassados pelo homem, em sua aventura rumo à completa divinização?
 A vida é uma viagem complexa rumo ao desfazimento. A loucura e a razão, como irmãs siamesas, são um componente ineliminável do percurso humano. Erasmo de Rotterdan, em seu “Elogio à Loucura”, já dissera, de forma irrefutável, que a natureza, genitora e produtora do gênero humano, teve o cuidado de deixar um tudo uma pitada de loucura, até para que vida dos homens não fosse triste e enfadonha.
 Uma pitada dessa loucura perpassa todas as estórias desse livro. Nos “Pequenos Contos”, a picardia associa-se a essa louca loucura que se faz vida.  E convenhamos, sem um pouco de ilusão e loucura, que sentido teria essa viagem a que chamamos vida?
                  
EDIVALDO TEIXEIRA
Juiz do Trabalho, poeta, autor de “Das Considerações
                                                                        Inominadas”. Ed. Imprimatur / Sette Letras.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Nossa Vida Nela Mesma Consumida


As coisas que nos abalam
e deflagram meditação e medo;
os  fatos que nos comovem e rasgam nosso ser
 _ neste tempo cada vez mais tumultuado_
são na verdade estereótipos de nós mesmos.
São reflexões nas quais nossa mente traduz,
racional ou irracionalmente,
percepções que impregnam nossa vida.

Não somos melhores ou piores,
somos seres pensantes que plasmamos,
através do nosso próprio mundo,
nossas expectativas e frustrações.
Nossa boca só murmura, quando o grito é sufocado.
O punho só é contido, se invariavelmente prostrado.
A face só é altiva se esquecermos no espelho
o rosto fugidio que nos olha.

sábado, 17 de setembro de 2011

Meu tempo II - Infância

         
                                              
Atravessando um estacionamento (antigamente um posto de gasolina e antes, ainda_ recuperando cenas inebriadas pelo cheiro dos anos_ uma padaria de poucos fregueses) chego a uma ruela mal iluminada que me levará à escola de minha infância. Aspiro ao aroma adocicado de livros e cadernos; de seus papéis amarelecidos e da tinta fresca, úmida e pegajosa, que mancha o bolso de minha camisa tão branca onde se alojava a caneta de cuja pena vazava, lenta e intermitente, a tinta azul, densa e viscosa. Esses cheiros peculiares, umedecidos de aurora, vai aos poucos se impregnando na minha memória e a aviva: escrevi com essa caneta, agora me parece, todos os poucos anos de minha meninice e não consigo me recordar de quando larguei o lápis e a borracha (parece que nunca usei esses materiais) ao contrário, nitidamente vejo o tinteiro e o mata-borrão, aliás, tão requisitados, pois aquela caneta verde da qual tanto me orgulhava, deixava transbordar a tinta que penetrava em minhas unhas e manchava meu caderno de borrões. Tão pouco tenho a contar, mas não posso deixar de narrar no ritmo enfadonho e fugidio das reminiscências, as peças fragmentadas daqueles dias; correndo o risco, mais do que flagrante, de não ser preciso, nem verossímil. 
            Por exemplo, saltando já alguns anos, já que a memória fugidia insisti em pregar peças. questiono: em que ponto eu perdi a minha fé? Na métrica dos anos, talvez, foi a partir do momento que me voltei mais vorazmente aos livros, a princípio por me encontrar  inutilizado em uma cama por causa de um acidente... Depois, por me embrenhar em todas as leituras que até, então, não tinha tido curiosidade de ler. Tal incidente levou-me a ler a Bíblia inteira, primeiro porque na época, antes do acidente, não tinha condições de comprar livros (era, então, assíduo frequentador da Biblioteca Municipal, hábito este que adquiri de uma das minhas irmãs, T...., e os pegava emprestado quase todas as semanas, o que fiquei impedido por estar acamado e na verdade, tratavam-se mais de romances e aventuras juvenis);  segundo, por querer recompor a minha fé que já dava sinais de esmorecimento; contrapunha-a assim a outros textos não católicos. Fruto de minha briga diária contra a ociosidade forçada, depois do livro sagrado católico foi o Alcorão, que peguei de empréstimo de um amigo meu, que deu inicio as minhas especulações religiosas, o que alguns anos mais tarde me levaria para temas esotéricos: sufismo,  cabala, magias de pirâmides e de cristais, OVNIS e  outras bobagens mais. Tudo isso, quase sempre, lido as escondidas de minha família. Temia ou não queria ouvir nenhum tipo de admoestação.   Tempo depois, já no serviço público, voltei-me para a filosofia, encontrando Nietzsche, depois Voltaire, que me abriram um enorme campo de questionamentos e os devorei; seis anos depois voltei a ler novamente a Bíblia, desta vez por curiosidade literária já que me fascinaram suas epopeias construídas em centenas de anos por uma nação ainda em construção e com  e´um espírito mais crítico e aberto. Se bem que continuei frequentando a igreja por mais alguns anos. No  entanto, questiono hoje, 35 anos depois, se algum dia realmente eu tive fé? Voltando ao primário, onde uma religiosidade imposta comprimia-me com sua presença pesarosa. Os rituais religiosos, as orações levadas à exaustão, os momentos de penitências nas sombras das igrejas: isso tudo será que em algum momento tocaram-me inquestionavelmente?  Ou os parcos recursos, as pequenas humilhações no colégio que se tornaram agigantadas ante ao garoto que eu era, baniram do meu ser_ não, ainda, a religião opressiva daqueles tempos_ os pequenos rompantes de transcender-se? Transcendência essa ardorosamente procurada nos quartos de taipas gelados das noites de inverno e tórridos no verão, onde eu procurava me livrar dos pecados; como se a minha alma tão jovem fosse capaz de conter tantas máculas das quais, apavorado, vivia me penitenciando. Aliás, mais que fé em um Deus tinha pavor do Diabo, constantemente anunciado nos sermões dos frades e nas intermináveis novenas a Nossa Senhora; na igreja abarrotada de imagens de santos e de um Senhor morto envolto em mortalha roxa e medonha.
            O incenso que impregnava o ar, agora refresca como um bálsamo as minhas memórias. É seu odor que emana de minha infância, toda ela besuntada de sua densa fumaça. Vejo surgir as infindáveis procissões, festas religiosas e os jejuns intermináveis, valorizando ainda mais nossa anemia crônica. Meu lar também parecia ser um prolongamento desse êxtase litúrgico que me arrastava, quase sem resistências, para outras armadilhas: o colégio de freiras onde cursava o primário oferecido graciosamente aos alunos pobres, o catecismo, as irmandades religiosas infantis. O ar-compulsão-místico se espargia por tudo em nossa volta e nos obrigava assim, querendo ou não, a compartilharmos dele e desta maneira tornava-o natural e quase respirável. E arrastava o meu ser confuso e frágil, em um corpo tartamudo, magro e anêmico se escorregando pelas ruas estreitas e suas igrejas enormes e avassaladoras que apenas mudavam de endereço, mas se mantinham iguais. Deixei a religião e minhas crenças muito tempo depois, mas a alegria da beatitude já tinha me abandonado quando adentrei na adolescência, antes mesmo de meu malfadado acidente. Esse incidente foi um dique que separou essa fase de minha vida, levando-me às paragens mais amenas, deixando para trás um pouco de minhas feridas e traumas pré-adolescentes. Porém, o torvelinho de algumas outras pequenas tragédias ainda haveria de desaguar.   

quarta-feira, 18 de maio de 2011

MEU TEMPO

MEU TEMPO

I

           FRANJAS E JANELAS


           O tempo tem franjas e janelas. As franjas, um emaranhado de idas e vindas, carregam as multifacetações: os fragmentos dos dias em horas imensuráveis que escorrem e se dividem em facetas que compõe toda a nossa vida, sem classificá-la como antes e depois.  As franjas se abrem como miríades ávidas em se multiplicarem nas cópulas dionisíacas da fertilidade intemporal da mente com seus sonhos impossíveis e suas aspirações ingênuas e, nem sempre, levam-nos a algum lugar. As janelas nos levam ao passado perscrutado em sinais e cicatrizes ou ao futuro prognosticado pelas marcas indeléveis do presente. Como o futuro não me interessa, tentarei auscultar o passado em suas franjas, ciente da possibilidade de não conseguir desemaranhá-las do presente e confundir cronologicamente os fatos mais próximos daqueles mais distantes, pois a mente prega-nos peças revelando sem cessar situações que poderiam ou julgaríamos serem diferentes. Quase sempre, quando tentamos reencontrar nossa infância, nos vemos em volta com cenas estereotipadas de nós mesmos. E mesmo num passado não muito longe, o que éramos não é exatamente o que somos. Embora não provoquemos tais situações, o ambiente em volta parece conspirar contra nós e nesses momentos sentimos o quanto estivemos sozinhos e como foram pueris nossas tentativas de conservar certas amizades e hoje, ao tentarmos recuperar dos ecos das cavernas de nosso interior nossas lembranças mais suaves, a frustração nos abate, pois aquelas que nos vêm são sempre as que mais nos doem. O ontem, premido pela nossa fragilidade e dependência paterna expôs suas marcas no que hoje somos ou tentamos ser. E é ainda tão frágil nossa resposta para a vida que está passando e que não conseguimos ainda segurá-la nas mãos, que nos sentimos incompletos __e isso nunca nos deixará. Ontem, hoje e amanhã são faces de um todo que só se completará aos olhos alheios, quando nossa vida for apenas uma miragem. Por outros olhos, então, ela terá sentido: começo, meio e fim e esses dirão, mergulhados em suas próprias incompletudes, que nós fomos alguém. Essa intangibilidade é que me deixa confuso e vacilante; não sei se saberei descrever esse tempo perdido em imagens distorcidas ou rasgado por um destino que se achou indeciso. Talvez esse passado perdeu-se de propósito, sabendo-se tempo inócuo e irrelevante, puramente descartável, sabiamente cônscio de nada representar. Porém, se o exorcizo de meus sonhos e o esqueço como se esquece dum cigarro no parapeito de uma janela jamais aberta, retorna como pesadelos, possuindo-me como se cobrasse sua morada. Nesses sonhos esse passado se faz irreverente, sem todo o “glamour” que aparentava ter. Vago e fugidio como qualquer prosaica miragem. Tento, então, evocá-lo na vigília monótona de meus dias e nesse exercício nem sempre sóbrio de devaneios, tento resgatá-lo sabendo não poder exigir prova alguma, nem me dar, se falhar, desculpa alguma. Não sei também se saberei descrever as ruas, ruelas e becos onde se emolduraram suas imagens incrustadas em mim como camafeus esculpidos na alma e esquecidas talvez nos parapeitos de outras janelas já carcomidas por tantas recordações.  (Minha mente entorpecida não consegue acompanhar o fluxo das coisas. Como se as cenas, os sons e o próprio tempo não se combinassem e estivessem em constante falta de sintonia, vozes e ecos se confundem com o silencio completamente fora de hora e lugar. Anestesiado tento sair deste torpor fixando meu olhar em alguma coisa tangível. Porém, é em vão).                                
            Os cheiros e os odores das franjas do passado me vêm em pinceladas; os pigmentos de suas tintas ao juntarem-se nem sempre formam um desenho viável ou descrevem alguma sequência lógica. Nos recônditos do nosso cérebro, antes das imagens, sempre tênues e vacilantes, são os cheiros que nos abrem aos poucos os véus da paisagem. Parece ser o olfato, quando nossa mente regressa lentamente no tempo, a chave que abre o mecanismo oscilante da memória. O que se perde em precisão se ganha em intensidades, saudades e nostalgias, pois os fatos são recompostos como um todo sem corte, porém fragmentado em seus odores _ falta-me mestria e talento para absorvê-los e descrever as cenas com fidelidade. Admiro os grandes escritores ao descreverem em minúcias os cenários de suas fantasias e admito ser, mesmo na ficção, um exercício árduo. Não é esse, no entanto, o meu propósito e só espero que não me escape, por desleixo ou imperícia, todo o sentido de meus devaneios.
            Porém é necessário esse resgate: moldura e época; paisagem e passado; viagem e peregrinação. Enfim, fotografias de fatos que me cobram suas receptações.