quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O LIXEIRO

Homenagem ao amigo Juca e a seu filho
José Marcos (Macao) “in memoria”
Já que estamos em novo ano é importante relembrar os amigos que se foram. Num pequeno e único livro editado postumamente pelos seus pais dá para sentir a delicadeza e profundidade do autor, morto muito jovem , e, com certeza, legaria-nos muito mais: " Talvez ao observarmos situações e objetos, estejamos observando somente uma parte oculta de nós mesmos.
Talvez nos falte isso: olharmos para a vida com a mesma segurança e tranquilidade que muita vezes nos falta, quando olhamos para o nosso íntimo."

Quando nossas ruas e
avenidas interiores ficam desertas
Ele aparece em horas oportunas
com sua pá já acostumada a coletar
os restos deixados; deixados por todos:
Restos de sonhos, restos de ilusões,
Restos de esperanças, restos de vida...
No seu carro se amontoam desordenadamente
palavras estragadas, pensamentos queimados,
rostos rasgados...
As ruas são largas, há muito trabalho.
Trabalhando sem cessar ele vai
limpando aos poucos a grande sujeira
deixada pelos que vivem...
E se espremem planos quebrados,
Amores perdidos, cacos de ideias...
Trabalha por um dia melhor,
Para uma vida melhor...
Ele limpa, mas os restos não se acabam,
Há algum tempo, ele pensa
serem infinitos esses restos;
Bueiros de restos, cestas de amarguras.
A noite segue silenciosa
e com ele, o seu trabalho
coletor de agonias.
José Marcos Reys Cardozo

terça-feira, 27 de outubro de 2015

À Prole Desdentada


Faróis
desembocam na boca
da noite-metal.
Escorre
nos paralelepípedos
translucidando a claridade noturna
o fétido óleo dos motores
a luzir
estragados
dentes-dinheiro
tragados nos bueiros dos shoppings
pinçados de tuas veias.

Otário proletário_ julgam
os intelectuaisputosburgueses_
quando sorris aos souvenires
que sugam o teu salário-suor
odor da cantilena neoliberal.

À eles
é fácil mutilar
um a um os teus sonhos
enquanto estão a dormir
obscenamente em berço esplêndido.

À ti,
cabe de lá derribá-los
com o ruído de seus reais pesadelos:
aluguéis aviltantes
copos de leite negados
salário-da-morte-mínima
que se escorrega
devagar pelas geladeiras vazias
para o esgoto das ruas quentes de mosquitos.

Vilipendiam-se
na social-demagogia a tua cidadania
Até quando
pagarás sem revolta
o assolamento das epidemias
na sorvida melancolia de seus dias?

agosto/97

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Entes Fantasmagóricos

ENTES FANTASMAGÓRICOS DE UM PASSADO TRISTE


Foram, antes de tudo, discretos.
Receberam uma educação sublime
(e, além do berço, alguma herança... ou falcatruas).
Fizeram ouvidos moucos aos acontecimentos políticos.
Votaram sempre a favor dos nossos algozes
mesmo quando havia no ar uma reviravolta possível.
Nunca ergueram a voz em protesto
nem gritaram contra injustiças.
Hoje quando perceberam
que,irreversivelmente as mudanças
se fizeram possíveis
dizem cinicamente: eu contribui com tudo isso.
Fizeram-se então, como fogo-fátuos
de pequenas miragens, presentes nas histórias alheias.
Tentam desfilar, ainda, como suprassumos da modernidade
e como oposição arrotam arrogâncias
apesar de não entenderem
porque o futuro de seus filhos
graças a eles, pode estar comprometido.
Se nutrem de golpes e se dizem democratas*
Canalhas! Canalhas! Canalhas!

Frases acrescidas em 2016

17/02/08

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Aos Idiotas

(do grego idiotis que significa aquele que despreza tudo que é público, alienado)

O idiota é um imbecil
não se deprime
pois se acha o máximo
julgando-se acima do bem e do mal
não se lamenta, nem se culpa
pois é desprovido de autocrítica
(em altos brados vangloria-se de seus próprios feitos)
não aceita conselhos
nem ouve a voz ao lado
mesmo que depois assuma
como suas, ideias alheias.
Normalmente tem alguma cultura
senão se escorregaria no limbo da ingenuidade
(prerrogativa dos loucos e dos bem-intencionados)
medíocre e chulo, não é digno de confiança
nem passível de pena e sim, desprezo.
O idiota é um estorvo social,
mas nunca perceberá isso.


                                                                                                         
 José Araujo
30/01/10

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Investir na Rebeldia



Vamos investir na pura rebeldia?
Nessa sociedade moralista,
hipócrita e conservadora,
que tem medo de crianças da periferia
e guarda às suas há sete chaves em colégios moralistas.
Que tal falarmos aos nossos filhos que o céu não existe
e que a catequização faz parte dessa enganação?
Podemos assumir que o papai noel nunca cruzou os trópicos
e que o saci-pererê nunca fez mal a fada madrinha.
Que é impossível ser filho de virgem e ressuscitar no terceiro dia.
Será que não forjamos tais mitos para perpetuar outros ainda piores
como aquele em que os pretos não tinham alma, para podê-los escravizar?
Ou que a pobreza é certificado de inferioridade?
Será que a redução da maioridade penal  fará
que a sociedade se ache mais aliviada desse mórbido peso?
Mas  conseguirá aliviá-la dos engôdos dessa hipocrisia,
que só matará a inocência daqueles,
que um dia, acreditaram nisso tudo?
Digam: vocês tem certeza de darem aos seus filhos
algo palpável, com tal enredo ?
Não é preferível deixar eles acreditarem no que quiserem?
Acreditam ainda que tais fábulas que vocês ensinam
farão dos filhos dos outros pessoas melhores
ou aliviarão vocês da culpa de terem vilipendiados seus próprios filhos?
Será mesmo que eles não dormiriam tranquilos sem tais subterfúgios?



segunda-feira, 13 de julho de 2015

A Magia dos símbolos

A MAGIA DOS SÍMBOLOS


De onde vêm os símbolos, vamos raciocinar pragmaticamente sobre eles? Vou teorizar sobre apenas três.
Um dos símbolos que representa a civilização ocidental já ultrapassou há séculos os muros que separam o ocidente do oriente, é a aliança de noivado. Um círculo banhado a ouro que é aceito pelo casal em sinal de compromisso e perseverança.
Outro símbolo que também significa compromisso, e nesse caso, com o escambo ou troca de mercadorias, ou seja, com o mercado em sua primitiva forma, é a moeda. Cunhada na antiguidade virou símbolo do capitalismo e tornou o mundo financeiro mais ágil e dinâmico. Depois da revolução industrial o mundo não mais vive sem dinheiro (diga lá a Grécia à beira de um colapso financeiro imposto pelos sangue-sugas do imperialismo globalizante).
Um terceiro símbolo também secular, seria a pólvora que simbolicamente representaria a Luz!
Tomemos estes três símbolos: união, ostentação e advir.
União: espiritual entre os noivos e a sociedade baseada na família tradicional; a ostentação: o sonho capitalista do lucro e ascensão social; o advir: a luz que leva humildes homens a crerem numa vida além túmulo.
Não seriam menos profícuos numa simbologia cheia de signos e significações.
Vejam: três alianças poderiam significar a trindade divina, o ser supremo multifacetado. Três moedas (talvez de prata), dinheiro que tornou-se sangue e poder , que paradoxalmente sangra e paralisa o mundo, seria a matéria quântica que ascende o espirito, intermediária entre o humano e o divino, o limiar da beatitude.
Finalmente três palitos (embora a pólvora estaria na caixinha e não no palito), frutos do labor humano, ligado à terra e sua primeva decadência de um paraíso terrestre negada a Eva que queria apossar-se do conhecimento, da árvore do bem e do mal. Tal símbolo poderia selar a comunhão com o Empireo, se consonante e temente, celebrasse com os dois primeiros o ritual da salvação.

Talvez Jung, agora desencarnado _em outros devaneios_ conseguisse com sua mestria e eloquência proclamar, num miríades de combinações possíveis, os fundamentos de uma nova psicanálise que apaziguaria, enfim, o espírito conturbado do homo sapiens, já desconfiado de sua eternidade.

Conclusão: Os símbolos surgiram antes da invenção de escrita, uma forma de comunicação do homem das cavernas  com seus familiares e com a tribo e depois uma maneira esotérica de entrar em contato com o sobrenatural. Com o passar dos anos foram se sofisticando até chegarmos  a forma lúdica, como o Tarô, por exemplo,  que surgiu como um jogo na Alemanha no século XV e em vários países da Europa e reapareceu,  séculos depois como um artifício mágico de adivinhação. Toda mistificação de símbolos surge deste modo e cai nas mãos de oportunistas e charlatães que se enriquecem graças aos incautos que caem em suas artimanhas sobre adivinhações e cursinhos pseudos científicos. O que propus acima é demonstrar como podemos conferir um significado a quaisquer objetos e transformá-los em amuletos mágicos com as mais variadas interpretações.

sábado, 4 de julho de 2015

Eras Tu

(À Ivone, minha esposa, amiga e companheira)

Comigo caminhas há tanto tempo
Que já me acostumei c’a tua presença.
Esqueci-me, então, do gélido vento
Da antes estéril e vazia existência.
Se num começo, que se faz distante,
Não sabia avaliar tamanha dádiva,
Hoje, imensurável e lancinante,
É a paixão que flui em minh’alma que ávida
Se entrega aos teus carinhos; e, no entanto
És tu que a mim se entrega na verdade,
Pois sabes deixar-me com os encantos
de teu amor, enlevado de vaidades.
Tens tanta ternura dissimulada
Em gestos firmes, que tão bem escondes,
Que sou eu e não tu, que só andas se levada;
E sem ti, se ando, é sem saber por onde.
Pois, quem eu, solitário, procurava
E desatento não a percebi chegar,
Eras tu que de fato me amparavas
E assim guiando-me, ensinaste-me a te amar.