sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Meu tempo III - A finitude da Vida


(Subtraída de Meu Tempo)


Fazemos pequenos retratos de nosso passado e um dos quais eu até hoje guardo comigo é dos telhados que avistava de minha rua. Incrustada em morros envoltos por serras, deixava o centro da cidade com seus casarões antigos de taipas ou de enormes _ e mais antigos ainda _ tijolos de barro a se estender aos seus pés, deixando sobressair majestosos telhados que sublimavam, ao sol reluzente, as estreitas ruas de paralelepípedos. Eu adorava caminhar sozinho, percorrendo-as vazias de fim-de-semana, em caminhadas difíceis de terminar. Sempre descobria alguma coisa ainda não notada, alguma beleza a minha espera. Ou evocava, dos cheiros ainda recentes, reminiscências de meus poucos anos. Sabemos que tudo é naturalmente novidade para uma criança em crescimento e pouco nos recordamos de como foi se processando em nós esse aprendizado febril e ininterrupto. Espanta-me hoje, o quando esse aprendizado se processa na velocidade absurda dos computadores. Com certeza comendo ruas e tornando cada vez mais fugazes as frágeis recordações. (Não terão os futuros adultos, na mente, apenas a memória dos “facebooks” ?) De qualquer maneira, em algum momento, para todo jovem tudo é a primeira vez, tudo deslumbramento e espanto, tudo vontade de se descobrir e de repente, damo-nos espantados com o inusitado. Com a descoberta de nosso corpo, redescobrimos o mundo em nossa volta: novos amigos, gostos, novas paisagens, novos costumes e com eles emoções antes estranhas como o sexo e a cumplicidade com o trágico na vida, o sentimento da morte e da fatalidade. Coisas que não faziam parte ainda de nossos temores.
Ao tomarmos consciência da finitude da vida a morte fica cada vez mais difícil de ser assimilada. Até certa idade a morte é incompreensível e, portanto, um sentimento estranho, mas irrelevante. De repente ela é real e presente. Por exemplo, da morte de meu avô paterno só me recordo de sua lenta agonia que me incomodou tanto... e eu tinha apenas três anos de idade. Anos depois, quando tudo aquilo só fazia parte de meus sonhos, foi a fedentina do ambiente _formal e álcool misturado ao cheiro das flores_ o que ainda trago na memória do primeiro velório que participei e certa repugnância, devida talvez as circunstâncias da morte de meu tio. Repugnância que não me furtou, mesmo na juventude, de ir a outros velórios ( mesmo porque nem todo cadáver está, ainda quando velado, em estado tão próximo da decomposição _ pelo menos eu o julguei assim) _ ainda por acreditar na vida após a morte, mas mais por respeito ao morto e aos seus familiares. A família ainda é para mim, mesmo sem a opressão de antigamente, uma referência marcante e o ritual da última despedida, sei lá por quais sentimentalismos, ainda me atraí. Porém é ainda esse cheiro que trago na lembrança associado a um ambiente escuro emoldurado por fotografias de falecidos e imagens de santos, numa sala sombria e lúgubre, palco de outros inúmeros funerais. Pois era esse o limiar entre esse mundo sombrio e o outro, manifestando-se assim ainda mais fantasmagórico e aterrador. Nesse quadro a passagem desta vida parecia pesarosa e triste, nada que lembrasse algo empíreo ou celestial _ promessa da Santa Igreja_ para aonde nossas almas seriam transladadas depois de nosso martírio terreno. Minha avó morreu não muito tempo depois e a compreensão do fato, deixou-me estupefato. Mas só, oito anos depois, descobri o outro lado da morte num funeral de uma menina que estudou comigo a quinta ou sexta série do ginásio e por quem tinha me apegado tanto que foi, com certeza, minha primeira e única paixão juvenil.
Vítima de um acidente automobilístico por qual tanto se culpou sua mãe, que dirigia o veículo, Olguinha morreu às vésperas de seu aniversário de 14 anos. Recordo-me de ter corrido a sua casa assim que soube da notícia, sem mesmo avisar meus pais para aonde e por que ia tão aflito e já tarde da  noite. Na verdade era para certificar-me daquele absurdo que me desesperava e que eu não conseguia acreditar; tinha que refutá-lo, pois relutava... E quanto tempo eu relutei, depois, em aceitar. A morte é inevitável, mas nem por isso fácil de ser aceita e no meu caso, essa sensação de finitude e aniquilamento, antes jamais sentida, foi-me terrivelmente cruel, pondo-me de frente a uma perda irreversível. Tanto assim que em lembrança a ela, pela primeira vez na minha vida, conseguiria escrever mais de três páginas de uma prosa manuscrita cheia de dor e saudade e da qual até hoje me arrependo por tê-la rasgado, com inúmeros poemas dessa mesma época, quando me julgando adulto, achei-os infantis.
Desta vez, para alívio e deslumbramento meu, o ambiente não tinha aquele ar nauseabundo e sim, um cheiro suave de incenso que nem de longe me lembrava àqueles das procissões e ao invés de cruzes e imagens de santos católicos, ícones budistas. Hoje não acho mais nenhum velório aterrador, mas o contraste foi sensível e revelador. Primeiro por notar que o budismo não era a opção única naquela família: ela e sua mãe eram católicas e aceitavam conviver com os cultos orientais paternos; segundo por presenciar algo tão exótico e singular, onde a procura da paz do espírito e da transcendência se contrapunha à salvação da alma no cristianismo. E, por fim, por enxergar uma verdade possível em outros credos. A infalibilidade de minha religião quebrava-se no meu espírito de uma maneira irreparável e definitiva. Continuava cristão, mas meu horizonte se abria para salutares dúvidas e brindava-me com a leveza do mundo. A morte a partir de então teceria outras marcas em minha vida.

                                                            *

O ritmo de minha caneta torna-se febril, mas minha mente acha-se cada vez mais confusa; a única coisa que me impede de avançar é a covardia de me desnudar aos olhos censores de mim mesmo. Não consigo mais conter o fluxo que emerge voraz e incontinenti e ao mesmo tempo fugidio, daquilo que um dia eu fui. Rasgo mais vorazmente os registros inacabados de minhas memórias; seus pequenos pedaços se avolumam ao meu redor como se fossem escamas que abandonaram meu corpo deixando nele feridas que se recusam a cicatrizar. “Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates por saber que não existe para o homem algo mais difícil. No caleidoscópio de nossa infância fica impossível macular com a verdade a nós mesmos e assim nos escondemos ou tentamos nos esquivar de tudo aquilo que nos incomoda e das lembranças que nos ferem a alma. As franjas que tecemos com o tempo sobre nós mesmos são apenas pálidas molduras, pouco sensíveis àquilo que realmente foi e deixa-nos ainda muito tempo depois, desarmado. E da meninice à adolescência o que consigo perscrutar, fora as pinceladas dadas, é um mundo que em mim, parecia sempre a se esboroar, abarrotando-me de tédio, vacilações e medo. É evidente que nem tudo na minha infância foi nauseabundo, havia também alegrias, através das amizades e das brincadeiras comuns da idade. Mas, paradoxalmente, como foram fugidias por terem sido, naqueles tempos, tão necessárias!


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